Estratégia Sinais de alerta, tipo de confinamento e mensagem são os TPC pedidos pelo Governo aos peritos e parceiros sociais
Expresso
uando António Costa se ligou pelo computador à reunião desta semana no Infarmed, viu-se no pior cenário político possível: a perspetiva de pelo menos mais um mês de confinamento pela frente, uma evidente demarcação dos partidos e uma vaga de críticas dos comentadores como ainda não se tinha visto (há até quem já lhe anuncie o fim político). O início da reunião não foi, para ele, auspicioso: Manuel Carmo Gomes, um dos especialistas que o Governo ouve desde o início naquele fórum, deixou uma última palestra, cheia de críticas à forma como entende que o Governo tem gerido o combate à pandemia: sempre a reboque dos acontecimentos. Uma última palestra porque, dias antes, o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa tinha dito à ministra que teria de deixar aquele papel central nas reuniões, avisando-a que iria ser incómodo naquele último momento. António Costa ainda lhe deixou um elogio no final, para evitar que a saída do especialista fosse entendida como um cartão vermelho exibido pelo Governo. Mas já iria tarde para evitar o problema: o diagnóstico ali feito acabaria por condicionar todo o debate desta semana. A saída de Costa foi, no final, deixar três trabalhos para casa (TPC) aos habituais presentes na reunião do Infarmed, tentando abrir caminho a um “consenso mínimo” para o pós-confinamento, que lhe entregue um guião para lidar com uma quarta vaga da pandemia. Na verdade não é um, mas três consensos. E não será com os partidos, que Costa vê como definitivamente perdidos nesta batalha, mas com especialistas e parceiros sociais. Um desses TPC foi direto aos parceiros sociais, patrões e associações sindicais: que avaliem se preferem “confinamentos intermitentes (curtos e intensos) ou medidas de contenção (que não cheguem a um lockdown) mais prolongadas e que permitam ir gerindo a situação sanitária”, um pouco à medida do que aconteceu entre setembro e dezembro, explica ao Expresso uma fonte do núcleo duro do Governo. A ideia é que os parceiros avaliem o que é para eles preferível em termos de custos, porque ambas têm custos pesados na economia, mas também que os peritos façam a avaliação de efeitos das duas opções. NOVOS CASOS EM PORTUGAL
MORTES DIÁRIAS
INTERNADOS
TAXA DE POSITIVIDADE DOS TESTES
ESTUDAR “O MEDO” Os outros dois pedidos de Costa foram para os peritos: primeiro, que conversem e procurem um “consenso técnico quanto às linhas vermelhas” (ou sinais de alerta) sugeridas por Manuel Carmo Gomes para espoletar, no futuro, um novo confinamento. Se o especialista sugeriu um Rt de 1,1, uma percentagem de testes positivos de 10% (idealmente 5%) e uma incidência máxima de 2 mil casos por dia como linhas vermelhas, o primeiro-ministro quer que eles, em conjunto, lhe digam “se devem ser estas, outras, se cumulativas ou alternativas”, explica a mesma fonte. Um consenso técnico, neste ponto, permitiria a Costa evitar o problema que sentiu nos últimos meses: cada especialista dá a sua opinião, nem sempre convergente, deixando o Governo quase sozinho (e sujeito a todas as críticas) no momento da definição das medidas. Ontem, Costa foi direto no desafio e nem escondeu a tensão com os peritos: “Se começar a ouvir a televisões às 8h e puder ir até ao fim do dia, vai ouvir opiniões diversas. São naturais, saudáveis, mas esse debate gera muitas vezes confusão nas pessoas. E o decisor deve decidir com base científica, mas essa decisão deve ser tão consensual quanto possível.” Mas os TPC pedidos por Costa aos especialistas na terça-feira não se ficaram por aqui: o primeiro-ministro desafiou-os a “incorporar no trabalho técnico os indicadores e contributos das ciências comportamentais”, porque Costa continua com uma dúvida sobre o que aconteceu nestas semanas. Uma fonte próxima do primeiro-ministro traduz assim essa interrogação: “O encerramento das escolas acelerou a redução de casos por efeito mecânico da redução da mobilidade ou porque as pessoas só perceberam a gravidade da situação com essa medida?” Para Costa, isto pode fazer a diferença no futuro: “Se foi pelo medo, pode não ser preciso voltar a fechar escolas, caso seja necessário novo confinamento”, acrescenta a mesma fonte. O primeiro-ministro deixa um recado: as divergências entre especialistas “são saudáveis, mas esse debate gera muitas vezes confusão nas pessoas” A introdução de uma “variável comportamental” nas análises e decisões do Governo tem, assim, um objetivo paralelo ao do estabelecimento de um “consenso mínimo” que Costa procura: é também um pedido de ajuda para que o Governo possa afinar a sua mensagem em caso de novo aperto da pandemia, agora que a exaustão dos confinamentos e restrições atinge um pico, prejudicando a eficácia das medidas (ver texto ao lado). “Está neste momento em constituição uma task force de ciência comportamental aplicada em contexto de pandemia, ou seja, um grupo técnico que possa aconselhar o Governo a fim de garantir uma mensagem eficaz que promova a adesão às medidas sanitárias e a adoção dos comportamentos mais adequados a cada fase da pandemia”, acrescenta ao Expresso fonte do Executivo. Ainda sem conhecimento da criação de um grupo de trabalho, a Ordem dos Psicólogos reforça que a mensagem a passar agora à população “é muito mais complexa” do que a do primeiro confinamento. “Há fadiga pandémica, problemas de comunicação, baixa literacia, determinantes socioeconómicos e alguns problemas psicológicos acima do que acontece na Europa”, defende o bastonário, Francisco Miranda Rodrigues. “É agora preciso diferenciar a mensagem de acordo com o destinatário, percebendo as suas competências e capacidade de autorregulação.” Tanto a Organização Mundial da Saúde como o Reino Unido, Finlândia, Canadá ou Holanda têm já há muito tempo grupos de especialistas em análise comportamental a apoiar os decisores. TENSÃO COM OS PERITOS A procura dos três consensos com os parceiros sociais, mas sobretudo com especialistas, seria uma tábua de salvação para o Governo, que tem visto acentuar-se o cerco, até científico, às decisões tomadas. A tensão entre Executivo e técnicos não é nova (o primeiro-ministro chegou a queixar-se da falta de consenso entre eles para definir medidas de restrição), mas acentuou-se após o alívio de Natal. Nos bastidores, há membros do Governo que anotam razões de queixa: seja pelas falhas nas previsões, pois ninguém, nem Manuel Carmo Gomes, foi perentório a sugerir um fecho do país no Natal; seja porque não houve consenso entre os técnicos quando foi preciso definir se as escolas teriam de encerrar. Mas os desentendimentos anotados na esfera do poder alargam-se à própria DGS, que agora foi empurrada para voltar a alargar os critérios de testagem ou para aceitar a inclusão das farmácias numa próxima fase do processo de vacinação. No último encontro no Infarmed, Costa alertou mesmo para a necessidade de ultrapassar “corporativismos”, aviso que pode encaixar na DGS, assim como nas ordens profissionais, que resistem à contratação de rastreadores que não sejam médicos ou à contratação de profissionais que não preencham todos os requisitos formais. Se o “consenso mínimo” chegará ou não só se verá na próxima reunião, daqui a 15 dias.
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